Biografia

Mark Lambert tem uma dessas trajetórias que parecem roteiro de filme musical independente — começa no porão da casa dos pais em Newark e vai parar no palco de festivais pelo mundo, atravessando rock progressivo, bossa nova, jazz sinfônico e pop autoral como quem troca de estação no rádio.

Ele nasceu em Newark, Nova Jersey (EUA), e começou cedo: trompete aos 7 anos, bateria aos 10, guitarra elétrica aos 13 e piano aos 16. Antes mesmo de poder dirigir, já dirigia bandas — primeiro uma de rock aos 11, depois uma de jazz aos 16, ambas ensaiando na casa dos pais. Esse detalhe é revelador: a formação musical dele não foi apenas acadêmica, foi prática, coletiva, quase artesanal.

Aos 18 anos ingressou na Berklee College of Music, em Boston, onde se formou em Composição. Lá estudou arranjo e composição com Herb Pomeroy, Greg Hopkins, Thomas Oboe Lee e John Bavicchi, além de guitarra com John Damian, Alex Rodalesco e Al Defino. Berklee não é apenas uma escola; é um laboratório onde estilos colidem — e Lambert claramente absorveu essa diversidade.

Entre 1985 e 2004 morou em Hell’s Kitchen, Nova York, período em que construiu uma carreira internacional como guitarrista, cantor, compositor e arranjador. Gravou e/ou fez turnês com artistas como Renaissance, Ivan Lins, Milton Nascimento, Meat Loaf, Ute Lemper, Bebel Gilberto, Eliane Elias, Dave Douglas, Michael Brecker, Regina Carter, The New York Voices, Bob James, Bela Fleck, Chris Potter, Erasmo Carlos, Ben E. King, Toninho Horta, entre muitos outros. Essa lista não é apenas longa — ela revela amplitude estética: do jazz moderno ao soul, da MPB ao rock progressivo.
Entre 1985 e 1987 integrou a banda inglesa Renaissance e depois participou do projeto solo de Annie Haslam, gravando no álbum “Annie Haslam” (1989), produzido por Larry Fast (produtor renomado de Peter Gabriel). Em 1990 passou a tocar com o violoncelista Hank Roberts no grupo The Birds of Prey, gravando para o selo JMT e realizando turnês europeias.
 
Nos anos 1990 foi guitarrista, vocalista e diretor musical de Astrud Gilberto, com quem coproduziu os álbuns “Temperance” (1997) e “Jungle” (2002). Também integrou a banda Bob’s Diner, cujo tema “Over Easy”, composição sua, teve forte execução em rádios de smooth jazz nos Estados Unidos, Japão e Europa.
 
Seu primeiro álbum solo, “More Than Friends” (1999), foi um trabalhopop/funk gravado em Nova York. Em 2009 lançou “UNDER MY SKIN”, disco de standards de jazz pelo selo holandês Challenge Records, produzido por Vana Gierig. O álbum recebeu elogios em publicações como The Village Voice, Jazz Italia e Kulterspiegel, além de destaque em programas de rádio e televisão no Brasil e no exterior.
 
Mudou-se para o Rio de Janeiro em 2004 e, mais tarde, para São Paulo em 2017. No Brasil, tocou com Ivan Lins entre 2010 e 2012 e participou de gravações importantes, como no álbum “Convidados Vol. II”, de Erasmo Carlos, ao lado de Milton Nascimento.
Como arranjador, escreveu para a Orpheus Chamber Orchestra, NDR Orchestra (Alemanha), Icelandic Philharmonic, Bulgarian Radio Orchestra, Brooklyn Philharmonic e Orquestra Jazz Sinfônica de São Paulo. Desde 2017, tem recebido encomendas frequentes da Brasil Jazz Sinfônica, realizando arranjos para artistas como Arnaldo Antunes, Dora Morelenbaum, Fernando Takai, Tim Bernardes, Tony Gordon, Rubel, Almério e Fitti.

 

A partir de 2015 voltou a integrar o Renaissance, fazendo turnês internacionais e criando arranjos para a Renaissance Chamber Orchestra na celebração dos 50 anos da banda, registrada em Blu-ray lançado em 2021. Fez muitos arranjos para esta orquestra de câmera.

 

Também desenvolveu uma série de tributos no Blue Note São Paulo a artistas como Marvin Gaye, Al Green, Nat King Cole, Eric Clapton, Frank Sinatra, Elton John, Simply Red, Sting & The Police, The Beatles (em versão jazz), Tears for Fear, Oasis, entre outros — apresentações que depois chegaram ao Blue Note Rio.

Em 2025 participou do 3º Symphonic Classic Rock com a Orquestra Visconde de Porto Seguro e a banda Genesis Archives. Em 2026, sua obra de câmara “Migrazioni”, para violino e piano, teve estreia mundial no Teatro Rossetti, em Vasto, Itália, interpretada por Francesco D’Orazio e Giampaolo Nuti.

No mesmo ano lançou o álbum autoral de pop “MARK LAMBERT TO3” nas plataformas digitais.

Ao longo da carreira, apresentou-se em festivais como Rock in Rio (Brasil, Lisboa e Las Vegas), Montreux Jazz Festival, Montreal Jazz Festival, Savassi Festival, Rio das Ostras Jazz & Blues Festival, Bourbon Festival Paraty, entre muitos outros, além de turnês pela Europa, Japão, Indonésia, Israel, Tailândia e Américas do Norte e do Sul.

Há músicos que escolhem um gênero e o aprofundam. Lambert parece ter escolhido a travessia. Sua trajetória mostra algo raro: não apenas versatilidade técnica, mas fluência cultural — a capacidade de circular entre universos musicais distintos sem perder identidade. Isso não acontece por acaso; é resultado de curiosidade constante, disciplina e abertura estética. É o tipo de carreira que demonstra que a música, no fim das contas, é menos sobre rótulos e mais sobre linguagem — e sobre aprender a falar muitas delas com naturalidade.